Livro – Claraboia

Título: Claraboia (Portugal)

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2011 – (escrito em 1953)

Páginas: 377

Sinopse: “Primavera de 1952. Um prédio numa rua modesta de Lisboa. Narra-se a vida cotidiana de 6 famílias. Silvestre, o sapateiro que admira o mundo por sua janela do térreo. A espanhola Carmen vive ao lado em uma infeliz relação com seu marido Emílio, caixeiro viajante. Justina vive com Caetano no primeiro andar, sempre lamentando a morte da filha. Lídia vive sozinha, mantida por Sr. Morais que a visita algumas vezes. Quatro mulheres convivem no ultimo andar. Adriana, apaixonada pelas sinfonias de Beethoven. Sua irmã Isaura, devoradora de romances. Cândida, mãe das duas e sua irmã Amélia. Anselmo e Rosália admiram a beleza da filha Maria Cláudia, datilógrafa.  O jovem Abel anda procurando um sentido para existencia, aluga um quarto na casa de Silvestre e passa as noites filosofando com o sapateiro.”

Claraboia foi escrito em 1953 por Saramago sob o pseudonimo “Honorato”, mas permaneceu inédito até esse ano. O livro foi mandado para uma editora mas acabou esquecido, anos depois a editora entrou em contato com o autor e ele resolveu não publica-lo. Para os admiradores do autor esse lançamento aparece como um presente.  As histórias de cada família são narradas em ritmo bastante lento, com riqueza de detalhes sobre as características psicológicas de cada personagem e da influência de suas personalidades na casa em que vivem. Algumas palavras desconhecidas são inevitáveis, mas não afetam o fluxo do enredo. Fica cada vez mais interessante aprofundar-se nas histórias dentro de cada porta, janela, entre quatro paredes. Com alguma imaginação podemos montar o cenário, ouvimos o barulho de passos nas escadas, compartilhamos do interesse de cada morador pela vida alheia, passeamos dentro do humilde prédio.

As reflexões a respeito da existencia ficam por conta de Abel em suas conversas com o sapateiro Silvestre, de quem aluga um quarto. “Tem até um personagem que, de alguma maneira, é o Saramago debatendo-se com os seus próprios problemas e, nomeadamente, com um problema que ele nunca resolveu, que é o do optimismo e do pessimismo: se a humanidade é recuperável ou não e que atitude deve cada um de nós tomar, sentirmo-nos responsáveis por aquilo que se passa à nossa volta e intervir, ou acharmos que não temos nada a ver com isso e afastarmo-nos de qualquer intervenção na sociedade.” disse Zeferino Coelho, amigo e editor de Saramago, sobre Abel.

Critica-se a acomodação de duas famílias em seus casamentos infelizes e o apego ao passado. Justina mantêm intactas as roupas da filha Matilde, que morreu nova, vítima de uma doença. Carmen vê suas fotos e lembra dos bons tempos na Espanha. Retrata-se também a busca pela liberdade de cada personagem, cada um é preso a algo, à casa, ao casamento… Mas o único personagem que se considera livre, questiona-se sobre o valor dessa liberdade.

Isaura é tão absorvida por suas leituras que fica transtornada após ler A Religiosa, de Diderot , livro do qual apresenta-se trechos, para o completo entendimento dos motivos do transtorno da menina. São muitas as referências a obras clássicas da literatura, o que me deu mais vontade de ler algumas delas como Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski.

Dois trechos que gostei muito e podem dar uma ideia da linguagem usada no livro:

“Tenho a sensação de que a vida está por detrás de uma cortina, a rir às gargalhadas dos nossos esforços para conhece-la. Eu quero conhece-la.”

“Ter não é possuir. Pode ter-se até aquilo que se não deseja. A posse é ter e o desfrutar o que se tem. Tinha uma casa, uma mulher e um filho, mas nada era, efetivamente, seu. De seu, só tinha a si mesmo, e não completamente.”

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